Origem de blecaute na Venezuela é incógnita até para especialistas

Um homem passa por uma subestação de energia danificada em Caracas, onde ocorreram explosões na madrugada Foto: YURI CORTEZ / AFP
O Globo (Brasil)

 

Problemas na rede de transmissão elétrica, equipamentos obsoletos e incêndio podem estar entre as causas, mas técnicos não creem em ataque cibernético porque sistema de controle é fechado

Marina Gonçalves

RIO —  Há pelo menos cinco dias os venezuelanos se perguntam o que teria causado o pior blecaute do país em décadas, que deixou milhares de pessoas às escuras, paralisou o sistema de transportes e de telefonia e ameaça  o já precário sistema de saúde do país. Até agora, o que se sabe é que sua origem foi uma falha não especificada na  hidrelétrica de Guri, no estado de Bolívar, fronteiriço ao Brasil, que fornece 80% da eletricidade do país. Mas o que causou o blecaute ainda é fonte de especulação.

O presidente Nicolás Maduro e seus ministros insistem em que o apagão é o resultado de sabotagem e ciberataques organizados pelos Estados Unidos e pela oposição, sem, no entanto, fornecer provas. Já especialistas citam a falta de manutenção e de  investimentos no sistema hidrelétrico como principal motivo para o apagão.

Um líder sindicalizado do Corpoelec (Corporação Elétrica Nacional), Ali Briceño, disse a repórteres na sexta-feira que um incêndio em uma linha de transmissão desestabilizou a rede e fez com que as turbinas de Guri parassem. Na quinta-feira, a subestação San Gerónimo B,  que fornece eletricidade para quatro de cada cinco venezuelanos, parou de funcionar totalmente. Segundo ele, o governo tem lutado para reiniciar as turbinas desde então.

A hidrelétrica de Guri, a maior do país, fica localizada em uma área fortemente vigiada por membros das Forças Armadas. Nela, operam um comando especial e um grupo armado do Exército, um comando da Guarda Nacional, além de uma equipe de segurança interna da estatal de eletricidade Corpoelec — o que tornaria impossível uma invasão física.

Fontes ligadas à Corpoelec confirmaram que um incêndio de vegetação registrado na tarde de quinta-feira afetou as três linhas entre as subestações Guri, Malena e San Gerónimo B. No sábado, o presidente  detalhou  quatro ataques:  dois cibernéticos, um eletromagnético e um causado por um incêndio em uma subestação elétrica, “fundamental para a distribuição de energia”, mas que teria ocorrido apenas na madrugada de sexta-feira.

Em entrevista ao GLOBO, o venezuelano José Aguilar, consultor de sistemas de energia, explicou que outra  possibilidade  é que tenha havido um  problema no  sistema Scada, que regula e controla as linhas de transmissão. Mas ele descartou um ataque externo, já que o Scada  não está conectado a nenhuma rede, o que inviabiliza a possibilidade de invasão.

—  Como o sistema é todo interconectado, qualquer  problema em um lugar afeta outro —  explicou, descartando, no entanto, uma invasão no sistema. —  O sistema foi criado de maneira que não possa ser hackeado, precisamente para evitar um ataque externo.

Winston Cabas, presidente da Associação Venezuelana de Engenharia Elétrica, Mecânica e Profissões Afins (Aviem), confirmou que o sistema de controle automatizado da hidrelétrica é analógico, o que impede que ele seja acessado de maneira digital. Para ele, o apagão é produto de um  “incêndio no corredor de uma das linhas de transmissão, que é o coração do serviço elétrico do país”.  As linhas e torres que as sustentam estão cobertas de vegetação por falta de poda.

— Dois dos três condutores elétricos do sistema na linha de transmissão de 765 KV pararam de funcionar devido a superaquecimento e o último sofreu uma sobrecarga. Esses dois fenômenos acabaram com a sincronização das usinas hidrelétricas de Guri e Caruachi — explicou Cabas ao site “Efecto Cocuyo”.

Sistema elétrico pode demorar a ser estabilizado

Agora, a demora para estabilizar a rede elétrica preocupa os venezuelanos. A restauração da operacionalidade do sistema em Guri é complicada se os sistemas de proteção e controle da principal usina hidrelétrica do país não estiverem em boas condições. Além disso,   reiniciar as turbinas  requer operadores habilidosos que possam sincronizar quase perfeitamente a velocidade de rotação, explicam os analistas:

— Depois do primeiro grande apagão, ocorreram três outros blecautes e algumas explosões, o que evidencia que pode ter havido  um problema de perícia na manobra para reiniciar as turbinas. Ou seja, o defeito  parece ter sido mal diagnosticado e estão trabalhando com tentativa e erro — afirmou Aguilar.  — Caso se apressem demais, pode haver outros contratempos e a queima de mais peças. E se tudo sair bem,  o processo para que a eletricidade seja totalmente restabelecida  deve demorar de 32 a 40 horas.

O especialista destaca ainda que os operadores mais experientes  deixaram a empresa por salários baixos e uma atmosfera de paranoia:

— Vale lembrar que os trabalhadores elétricos são civis comandados por militares, que ficam na sala de controle armados. Isso cria um enorme sistema de pressão entre os funcionários.

Segundo o engenheiro Miguel Lara, o sistema elétrico poderia ser recuperado em duas horas se contasse com todo o equipamento e pessoal qualificado. Antes de ser nacionalizada, a extinta Edelca contava com 13 helicópteros para inspecionar toda a linha de transmissão. A San Gerónimo B conecta oito das dez maiores cidades da Venezuela à usina hidrelétrica de Guri por meio de uma das mais longas linhas de alta tensão do mundo.

— Identificar os pontos afetados nas linhas de transmissão  de 2.230 quilômetros seria fácil com raios infravermelhos que detectam essas anomalias — explicou ao site El Pitazo.

https://oglobo.globo.com/mundo/origem-de-blecaute-na-venezuela-incognita-ate-para-especialistas-23514097